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A Construção de um cenário: Um olhar sobre Escher

Escher

A formação humanista da FAUUSP, onde arte corria solta, sempre me fez pensar arquitetura com um viés artístico.

Para reconhecer nos artistas as possibilidades de manipular espaços  nada mais genial do que a obra de Escher.

Suas linhas precisas, seu olhar a frente do tempo, sua maneira de inserir sonhos e figuras impossíveis em seus trabalhos dão ao mundo a possibilidade de viajar em cenários fantásticos.

Criar a ilusão de que o impossível pode ser vivenciado sempre me seduziu na obra de Escher- suas perspectivas são tão perfeitas que abraçam o imaginário simbólico e nos devolvem a possibilidade de entrarmos em nossos sonhos.

No início de 2014 fui desafiada a pintar um cenário de um programa de televisão utilizando apenas linhas e poucos objetos para atividades gastronômicas.

Era uma oportunidade perfeita para exercitar o desejo de pintar arquitetura numa tela em branco e ao mesmo tempo reverenciar o grafismo escheriano.

Croqui de Carla Fazenda

Primeiro veio o projeto do espaço cenográfico, feito com dois painéis brancos em “L”, medindo 4,5 metros por 3,5m de altura cada. Projetei um cubo de apoio central para brincar de perspectiva com os interlocutores e um tapete preto para criar um plano em negativo.

Do esboço em papel  partimos para a montagem que foi filmada por várias câmeras em tempo real, como “stop-in-motion”, video que posteriormente foi editado para fazer a abertura de um programa.

Cenário de Carla Fazenda

A pintura acontecia em três planos:  nos dois painéis verticais pintei em preto e no piso fiz um contraponto negativo pintando em branco.

Elementos encontrados no repertório de Escher foram inseridos no projeto: portas, pilares e escadas, além de outros tantos que referenciam uma casa, como poltronas, livros, aquários e retratos.

Frank Lloyd Wright nos ensinou que os homens se sentam ao redor do fogo para contar suas historias e viver e foi dessa maneira que pensei o cubo central. Era o fogo sagrado que simboliza o lar. O fogo no qual ate hoje os homens se reunem numa conversa informal na cozinha ou em volta de um televisor.

Cenário de Carla Fazenda

Mas nada disso teria sentido sem essa dose de humor, uma salada de influências, do cartoon , da pop art, à arte urbana. O humor que vai temperar o que acontecerá nesse cenário onde duas humoristas literalmente apresentarão receitas inusitadas ao público.

Voltando ao inicio, o olhar para a arte pode sair de seu posto contemplativo ou crítico e levado a vivência prática.  Nesse exercício todos os outros tantos artistas que estudamos como referência surgem a medida em que o processo artístico se desenrola. Uma compilação de historias de outros e da sua própria passam a ilustrar o ato de pintar.

E depois disso, ainda servirá como palco para outros olhares – dramáticos ou não – que contribuirão para esse jogo infinito de ver- olhar e fazer a arte.

Carla Fazenda e cenário